Samael

2009, Novembro, 25, Quarta-feira

2009, Novembro, 21, Sábado

E Agora Você Decide

Quando eu era um pré-aborrecente já gostava bastante de literatura, costumava ler os textos das aulas de português antes dos meus colegas, por simples curiosidade. Desde minhas memórias mais antigas sempre esteve presente em minha casa uma pequena biblioteca, composta quase que totalmente de best sellers, além de algumas preciosidades não tão conhecidas como “O Processo” de Franz Kafka, “A Revolução dos Bichos” de George Orwell, “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, “As Aventuras de Gulliver” de Jonathan Swift etc. Li boa parte deles, mas eu ainda não conseguia entender muita coisa, eu tinha consciência disso então procurei a chamada literatura infanto-juvenil, foi então que conheci uma série chamada “E Agora Você Decide”, suponho que há muito tempo estes livros estejam fora de catálogo, uma pena porque eles tinham um ótimo diferencial: o leitor podia decidir o rumo da história, até um de seus múltiplos finais. Não haviam muitas possibilidades, mas era diversão garantida. Hoje em dia a interação e vista e qualquer lugar que tenha uma ligação com um computador, mas naquela época isso era inédito, pelo menos para mim.

Adicionado a esta interação do leitor solitário com suas possibilidades havia também um outro nível: eu e minhas irmãs líamos simultaneamente e quando acabávamos uma leitura trocávamos em nós. Os comentários sobre as histórias e os personagens eram frequentes, é claro que não éramos leitores treinados e educados na teoria de Walter Benjamin e Harold Bloom, nossa crítica ia muito mais para a história do que para os personagens, mesmo quando éramos nós a encarná-los em nossas escolhas, inclusive isso agora me faz pensar que mesmo com uma maior proximidade com a trama ainda haviam muitas cordas que nos deixavam em segurança, afinal embora estivéssemos interagindo com o conteúdo ele era estático, era apenas um livro. Pensar assim nos garante a integridade física, decidíamos em que armadilha o personagem cairia, enquanto estávamos sãos e salvos em casa. Os leitores de “Werther”, de Goethe, estavam a uma grande distância do protagonista da história, mas isso não foi o bastante para garantir que se envolvessem emocionalmente com ele e, sem esperanças, tirassem suas próprias vidas.

Muitos experimentos já foram feitos com livros, alguns bons exemplos são histórias em segunda pessoa, como “Aura” de Carlos Fuentes, “Memórias Sentimentais de João Miramar” de Oswald de Andrade, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, “Tristram Shandy” de Laurence Sterne etc., mas o importante a observar aqui é que muito da literatura mainstream segue uma receita de bolo, dificilmente arriscando um experimento, os leitores de “Sabrina” e Sidney Sheldon que o digam… Não afirmo que se deva experimentar sempre, e sim que se deixe de subestimar o leitor, muitos leem como se fossem sonâmbulos: andam com alguma segurança, mas não sabem para onde vão e nem como chegaram ali. Quero literatura de qualidade, o que muitas vezes acho difícil de caracterizar, mas estou me esforçando e acredito que isto faz toda a diferença.

2009, Novembro, 15, Domingo

Favoritos

Tenho lido bastante alguns blogs, em especial o De Rerum Natura e o Obvious, me encantam suas abordagens e os assuntos, algumas vezes acho que os posts são concisos demais, o que vem na contramão do “antes pecar por excesso que por falta”.

Em hardcopy tenho lido uma porção de coisas: As Viagens de Guliver (Jonathan Swift), Noturno, 1894 (Raimundo Caruso), O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien), As Cidades Invisíveis (Ítalo Calvino), Paradise Lost (John Milton). Além disso tenho várias traduções começadas mas não terminadas, desde a Odisséia (Homero) até Paradise Lost (Milton), passando por algumas poesias de W. H. Auden e O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux). Preciso de umas 10 vidas pra fazer todas as coisas que quero.

2009, Novembro, 1, Domingo

Poente

Arquivado em: Lúcifer (Doppelgänger) — Tags:, — Samael @ 6:51 pm

- Aqui, tome seu chá enquanto ainda está quente.
Pablo não esboçou qualquer reação, mas Juan sabia que aquele era seu chá favorito, em dias frios como este seu irmão costumava sentir muito frio e uma bebida quente era sempre muito bem-vinda.
Juan saiu da casa de teto baixo e olhou em direção aos últimos raios do sol antes dele se pôr, um lindo espetáculo que ainda o encantava, mesmo tendo-o apreciado por anos a fio. Lembranças levavam-no para diferentes épocas do passado, a infância marcada pela falta de comida, pelos longos e rigorosos invernos, pelos males respiratórios, pela longa distância da cidade mais próxima, pela educação rudimentar concedida pelos pais pouco letrados, mas quase tudo isso havia passado e havia em sua mente uma constante sensação de que nenhum outro lugar no mundo poderia ser melhor, pois esta era sua casa, sua família estava aqui, seus laços eram fortes e nada os separaria.
Mesmo depois do pôr-do-sol Juan ficou olhando para o oeste, a luz dentro de sua casa ainda não estava acesa, Pablo gostava destes momentos de escuridão após logo no começo da noite, pareciam-lhe uma hora mágica, em que a luz abandonava o mundo dos homens e alguns raios temiam em partir, mas todos já haviam partido, por mais que quisessem se demorar um pouco mais. A seu ver o nascer-do-sol não tinha a mesma beleza, o mesmo esplendor, a chamada “hora neutra da madrugada” em nada se comparava, era apenas uma “hora morta”.
A tristeza destes momentos era sempre agridoce para Juan, a umidade da noite se tornava opressiva em seu peito, junto com isso havia também o alívio em saber que esta mesma umidade se condensaria e seria coletada em um reservatório criado especialmente para isso. Como ali raramente nevava quase não havia falta d’água, o que não impedia do frio endurecer a terra, da geada queimar grande parte da plantação, para protegê-la era necessário cobrí-la com material leve e resistente, algo cara e difícil de conseguir nesta parte do país, diferente da capital, onde havia fartura de tudo, exceto de espaço para plantações e de ar puro.
Depois de muito vagar, muita interrupção e muito recomeço os pensamentos foram novamente dirigidos para sua família, seus pais haviam morrido há alguns anos, apenas Juan e Pablo ficaram ao encargo da pequena casa, mantida a duras penas. Decidido a voltar para dentro do único cômodo a que Juan chamava de lar um fogo foi aceso, grande o bastante para lançar sombras sobre as paredes, pequeno a bastante para não chegar ao teto. Enquanto a chama ainda estava incerta se cresceria ou morreria Juan observou o vapor de água que sua respiração formava, era muito parecida com a de Pablo, quando ele estava doente, pouco tempo antes de morrer.

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