Beijomeliga Shakespeare
Desde sexta-feira tenho estudado intensamente para uma prova que farei amanhã, li uma porção de ótimos textos e um deles trata de Shakespeare (aqui e aqui), ou melhor, de Hamlet (aqui e aqui) (Hamlet Nesta Metade de Século in Shakespeare Nosso Contemporâneo, Jan Kott, Cosac & Naify, 2003), e isto explica pelo menos em parte minha ausência aqui do blog. Mas, voltando ao texto: rios de tinta já se escreveram sobre este drama, por muitos pontos de vista diferentes, um dos melhores trechos que já li reproduzo abaixo.
Hamlet, considerado como um roteiro, é a história de três rapazes e de uma moça. Os rapazes têm a mesma idade, chamam-se Hamlet, Laertes, Fortimbrás. A moça é mais jovem, chama-se Ofélia. Todos os quatro estão envolvidos num sangrento drama político e familiar. Três deles morrerão; o quarto, um tanto por acaso, tornar-se-á rei da Dinamarca.
Escrevi de propósito que eles estavam envolvidos num drama. Pois nenhum dos quatro escolhe seu papel; este é imposto, vem de fora, é desenvolvido no roteiro. E o roteiro deve ser representado tal e qual, até o fim, pouco importa quem sejam seus personagens. Quem é em verdade Ofélia, quem é em verdade Hamlet? Isso pouco importa, por enquanto, mas, sim, o que é o roteiro? O mecanismo da história, o destino, a condição humana? Sem dúvida, qualquer um dos três; depende da maneira como quisermos compreender Hamlet. Hamlet é o drama das situações impostas. E é nisso justamente que reside a chave de sua compreensão moderna.
Tenho lido muitos bons textos, mas há tempos que nenhum me tirava o fôlego assim, parece que mergulhei numa piscina de água gelada e que dela saí tremendo de frio, com o corpo entorpecido e encolhido, mas com a mente expandida, quente, em paz e feliz. Me sinto assim por dois motivos: 1) o móvel de que o autor trata está atrás do leitmotiv, isto é, ele aumenta a profundidade da peça e a estende até ela se aproximar ainda mais da vida real; 2) é dada uma grande liberdade à essência de cada personagem, o que também acaba por trazê-los para mais perto da realidade.
Li Hamlet apenas umas duas ou três vezes, e admito que não havia percebido sua profundidade, mesmo depois de várias e intensas discussões e leituras sobre o assunto, agora sinto que estou chegando perto do que ele realmente quer dizer.
É interessante pensar que Shakespeare era considerado em sua época como um dos melhores teatrólogos, mas não necessariamente o melhor. Resgatado e recuperado num futuro que ele não antecipava pelas mesmas pessoas que não conseguem conceber uma literatura ocidental sem sua presença, isto me faz pensar: se ele vivesse hoje de que forma seria visto e aceito?