Samael

Fim de Caso

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2010, abril, 19, segunda-feira

… e tudo que acabei de dizer finalmente alivia minha consciência e desafoga o meu peito, sei que foi duro você ter que ouvir a tudo, sem poder me interromper, mas prometo que nunca o farei novamente, nunca mais repetirei este meu discurso tão cheio de rancor, sarcasmo e ódio. A verdade é que sempre que alguém diz que está amando, com todas as células do seu ser, outra pessoa, um vulcão entra em erupção dentro de mim, a lava é feita de medo e ignorância, o fogo é puro conhecimento-de-causa e destemor, juntos eles corroem sempre um pouco mais as amarras que prendem minha paz de espírito ao chão firme, ela quer voar e ele a segura sempre perto. O resultado do desgaste final da corda você viu, mas ao menos existe um consolo: isto jamais voltará a acontecer. Aposto que agora você sente alívio. Sim, realmente, depois da tempestade sempre vem a calmaria.

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Eufemismos Revoltantes

Publicado em Lúcifer (Deus ex machina) por Silvio Somer em 2010, abril, 16, sexta-feira

Em geral os eufemismos não são ofensivos, mas ontem conheci um que primeiro me pareceu engraçado, depois me deixou puto. Na Praça da Alfândega vi um grupo de pessoas usando camisetas com a frase Grupo de Resgate nas costas, elas distribuíam panfletos convidando as pessoas para um encontro evangélico. A princípio isto nada parece ter de ruim, mas ao perceber que estas pessoas pensam que quem não tem o mesmo sistema de crenças que elas precisa de resgate, isto é, que está perdida e, obrigatoriamente, deve ser trazida para a segurança, é algo que mexe com os meus brios. Isto é estreiteza de visão.

Outro caso, que acontece o tempo todo em empresas de grande porte, em que seus funcionários são chamados de colaboradores, como se isto fizesse valer a pena o salário de fome que se costuma pagar a estas pessoas. Ou como se o fato de se usar o nome mais bonito para alguma coisa fizesse com que a coisa em si fosse melhorada.

Atualmente há também uma espécie de expurgo nas histórias infantis, como em “atirei o pau no gato” que tem sido substituído por outras expressões menos violentas. Novamente um caso de estreiteza de visão. Uma criança não fará o que diz a música simplesmente porque ouviu isso, o que é subestimar a psicologia infantil.

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Pessoa

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2010, abril, 10, sábado

[Fernando] Pessoa opõe-se à metafísica sentimentalista romântica, que abstrai a sensibilidade da razão: “o que em mim sente está pensando”.

A distribuição que o poeta faz de sua obra por vários heteronômios tem dado ensejo a numerosas discussões sobre a sua unidade ou pluralidade, ou sinceridade.

SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa. p. 1047.

Nova Funcionalidade Adicionada ao Navegador Chrome

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2010, janeiro, 7, quinta-feira

Desde as primeiras versões do Chrome ficou claro que o pessoal do Google não veio pra brincadeira, com atualizações esporádicas e um visual bastante limpa às vezes o usuário final fica em dúvida com relação às melhorias neste fantástico navegador para a internet, há pouco notei que foi adicionado um tracker que nos deixa a par de quanto de um arquivo em upload já foi transmitido, assim é fácil saber quando a bagaça travou.

A funcionalidade (na imagem) pode não parecer muita coisa, mas pra quem já teve muitos problemas com uploads isso é uma maravilha, se é levado em conta que o Chrome é um bichinho bem veloz então o paraíso fica bem perto da terra.

O único porém é o fato de o Chrome não ser open source… Realmente, o diabo mora nos detalhes.

Michael Crichton – Eaters Of The Dead (Resenha)

Publicado em Lúcifer (Deus ex machina) por Silvio Somer em 2010, janeiro, 4, segunda-feira

Eaters Of The Dead - CapaPor um impulso de curiosidade comecei a ler, alguns dias atrás, ao Eaters Of The Dead do Michael Crichton e acabei preso na trama do livro, apesar de eu já ter assistido ao filme O 13o. Guerreiro. Por um lado o livro está naquela famosa categoria dos livros-melhores-que-os-filmes, por outro o filme tem um apelo bastante diferente. Não entrarei aqui na velha tecla do porque um livro é essencialmente diferente de um filme, deixo isto para outros.

Voltando ao livro… a história contada tem um quê fantástico, e vários momentos cômicos propiciados pelas grandes diferenças de culturas em choque. O protagonista Ahmad ibn Fadlan começa nos contando que o seu relato é uma representação bastante fiel da viagem que ele se viu obrigado a fazer, seu destino era a região em que vivia a tribo dos Rus, que mais tarde viriam a emprestar o nome à atual Rússia. As primeiras páginas são bastante enfadonhas, tudo é colocado no papel de forma bastante literal, sem qualquer intenção artística, o propósito disso é ser tão fiel à realidade quanto possível, para isto em vários momentos o narrador/protagonista utiliza a expressão “I saw with my own eyes” (eu vi com os meus próprios olhos), indicando um testemunho direto do que está sendo contado, o que aumenta a credibilidade que o leitor passa a depositar em tudo que está sendo dito.

Ao entrar em contato com vikings sua história muda drasticamente, assim como a forma que é feito o relato, que se utiliza de alguns elementos que cativam o leitor, tornando um livro difícil de largar antes do fim. Muitas notas de rodapé são usadas citando estudos de diversas áreas, especialmente de arqueologia, filologia e tradução, e à medida que a história fica cada vez mais irreal as notas passam a se empilhar, o que tem o interessante efeito de nos colocar em dúvida sobre a veracidade de tal relato. Toda a verdade é elucidada apenas no apêndice final, ali Crichton explica que escreveu o livro como uma recriação de Beowulf com um personagem de uma cultura muito diferente que presencia momentos que entrarão para a história, embora de forma bastante diferente, o fato de ter presenciado diretamente os acontecimentos não faz com que ele perceba sua importância. A verdade é que parece acontecer justamente o oposto: o que ele presenciou parece ser tão fantástico que nem ele mesmo acredita às vezes, do que se supõe que poucos acreditarão e logo a história morrerá.

Saber que Ahmad ibn Fadlan realmente existiu e que ele realmente conheceu os vikings pode nos levar a pensar que o que Crichton conta é verdade, quando percebemos nosso engano a sensação é de como se tirassem um véu que cobria nossos olhos e não tínhamos percebido: agora sabemos da verdade. Sabemos, mesmo? Para um estudioso de teoria literária este livro é um prato cheio em que além do arroz-com-feijão diário há também o acompanhamento de realidade/ficção misturadas (a ponto do próprio Crichton ler uma de suas notas de rodapé e procurar maiores informações sobre algo que ele mesmo criou) e temperos como culturas há muito perdidas mostradas em diversos detalhes, as mais arraigadas crenças postas em xeque, muita bebida, muito sexo e vários heróis.

Eaters Of The Dead é um best-seller, tanto no bom quanto no mau sentido, é uma pena que nem todos os best-sellers brinquem com elementos narrativos da mesma forma que ele, certamente a literatura seria ainda mais rica do que já é.

Eaters Of The Dead no Ziddu.

10 Dicas (Que Na Verdade São 11) Para Um Calouro De Letras

Publicado em Samael (pré-Lúcifer) por Silvio Somer em 2010, janeiro, 1, sexta-feira

Quem está entrando num curso superior pode não saber, mas mudou sua vida de forma irreversível, como todos esperam que seja para melhor acredito que algumas dicas podem ajudar bastante este marinheiro de primeira viagem.

Antes de qualquer coisa, lembre: esta é a melhor época de sua vida.

1. Facilite sua vida na faculdade
O curso de letras, por padrão, exige muita leitura e escrita, embora costume ser constituído de aulas em meio período o tempo necessário para dar conta de tudo é bastante grande, por isso reserve pelo menos três horas diárias para estudos.

Não deixe tudo para o último momento, em letras isto também é bastante válido porque a quantidade de trabalhos e provas tende a diminuir apenas nos últimos dias de aula de cada semestre.

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que faculdade não é colégio: isto é verdade, a partir do momento em que você estiver matriculado é necessário tornar-se autodidata e não ficar esperando que os professores te dêem tudo pronto, encontre uma área de interesse e a partir disso descubra um novo mundo de possibilidades.

2. Professores podem ser bons amigos
Em apenas algumas semanas já se sabe mais ou menos o que o curso oferece, além dos professores e suas metodologias. Cada instituição de ensino tem sua própria forma de ver a relação dos professores com os alunos em sala de aula, procure descobrir com os veteranos como isso acontece e aprenda a conhecer seus professores, mesmo que você tenha aula apenas por um semestre com um professor o reconhecimento de seu trabalho e uma interação saudável em sala de aula podem ser extremamente construtivos.

3. Faça bons amigos
Algumas amizades duram para sempre e as começadas na graduação também o podem, primeiro porque em geral são pessoas com idade semelhante que encontram-se com frequência diária e segundo porque estão no mesmo curso por terem feito esta escolha, isto é, partilham de uma gama de interesses que está sendo descoberta e aprofundada nos bancos das salas de aula.

4. Conheça sua faculdade/universidade
Conhecer a estrutura oferecida pela sua instituição de ensino pode ser muito importante para quem não quer perder grandes oportunidades. Descubra o que está à sua disposição com relação a oportunidades de emprego, cursos de extensão, cursos fora da instituição e do país, matérias optativas etc. Por menor que seja a instituição sempre há alguma oportunidade, seu currículo agradece.

5. Leia muito
Que um estudante de letras não estuda muita coisa no curso NÃO é verdade, há quem mantenha uma ideia fixa de que letras serve apenas para formar professorinhas e mulheres que querem achar marido nos cursos de medicina ou de engenharia. O que é bastante falso. A quantidade de leitura no curso de letras é bastante superior ao que se vê em alguns dos cursos mais conceituados da atualidade, por isso crie e mantenha uma biblioteca, caso isto não seja possível então visite a biblioteca da sua instituição de ensino, certamente ela terá algo de valor a te oferecer.

6. Aprenda a escrever bem
Escrever bem não é apenas uma necessidade para um graduando de letras, é também algo que se desenvolve durante os anos de muitas leituras, trabalhos e provas que formam a mente de cada aluno. Quem deseja ser pesquisador precisa escrever artigos e participar de congressos e afins. Quem quer ser professor precisa compreender bem seu instrumento de trabalho: as belas letras.

7. Procure um estágio
O estágio é uma ótima oportunidade de pôr em prática o que é visto em sala de aula, ainda que hajam vários ramos em que se possa atuar o escopo delimitador do estágio tem que se encaixar no currículo do curso definido pela instituição de ensino. Lembre: as letras estão em todas as partes.

8. Participe de eventos culturais e faça muita festa, mas com responsabilidade
Aproveite esta época ótima da sua vida para curtir festas, você já não é mais criança, por isso mesmo presume-se que seja responsável pela própria segurança. Vá a festas, vá a sessões de cinema, aos mais diversos tipos de shows musicais, prestigie a miríade cultural que é um dos principais traços da atualidade. Divirta-se, porque os anos de faculdade não são feitos só de livros!

9. Participe de grupos de pesquisa
Sejam eles promovidos pela instituição de ensino ou não, tenham eles incentivo pecuniário ou não, participe, eles podem ser de ajuda muito maior do que parecem, contanto que sejam levados a sério e, obviamente, que se estude.

10. Lembre sempre: VOCÊ faz a diferença na faculdade
Ser autodidata não quer dizer que você está sozinho, num curso superior cada um corre atrás das informações que mais lhe interessem, isto é uma regra e não uma exceção, afinal você não está mais na escola, agora você é a única pessoa responsável pela sua formação, mas é importante ter em mente que com certeza pelo menos uma pessoa tem os mesmos interesses que você, trocar idéias é uma ótima forma de aprender e também de ensinar.

Um curso superior não serve apenas para te guiar no lado profissional, ele é algo muito mais significativo: sua vida nunca mais será a mesma, e o curso foi feito para que cada um de nós mude para melhor, por isto aproveite sua mudança para mudar o que te cerca.

11. Informe-se sobre as atividades do DCE e do CA
O curso de letras pode ensinar muito mais do que o bom uso de pontuação num texto ou sua interpretação, a convivência coletiva é um apelo implícito à compreensão e aceitação de diferenças, para isto existem o CA (Centro Acadêmico) e o DCE (Diretório Central de Estudantes), ambos representam os alunos, o CA atua junto à direção de cada curso, para isto cada curso pode (e aconselha-se) ter um CA. Já o DCE representa todos os alunos da instituição junto à reitoria ou órgão administrativo com função semelhante.

Caso queira-se questionar e/ou lutar por mudanças ambos os órgãos são importantes instrumentos, tanto porque são compostos apenas por alunos (que nada recebem por seu trabalho voluntário) quanto pelo fortalecimento dos laços na comunidade estudantil: a partir deles é que são forjadas algumas das mais importantes mudanças na instituição, com a importante característica de que você é parte importante e a diferença.

E Agora Você Decide

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2009, novembro, 21, sábado

Quando eu era um pré-aborrecente já gostava bastante de literatura, costumava ler os textos das aulas de português antes dos meus colegas, por simples curiosidade. Desde minhas memórias mais antigas sempre esteve presente em minha casa uma pequena biblioteca, composta quase que totalmente de best sellers, além de algumas preciosidades não tão conhecidas como “O Processo” de Franz Kafka, “A Revolução dos Bichos” de George Orwell, “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, “As Aventuras de Gulliver” de Jonathan Swift etc. Li boa parte deles, mas eu ainda não conseguia entender muita coisa, eu tinha consciência disso então procurei a chamada literatura infanto-juvenil, foi então que conheci uma série chamada “E Agora Você Decide”, suponho que há muito tempo estes livros estejam fora de catálogo, uma pena porque eles tinham um ótimo diferencial: o leitor podia decidir o rumo da história, até um de seus múltiplos finais. Não haviam muitas possibilidades, mas era diversão garantida. Hoje em dia a interação e vista e qualquer lugar que tenha uma ligação com um computador, mas naquela época isso era inédito, pelo menos para mim.

Adicionado a esta interação do leitor solitário com suas possibilidades havia também um outro nível: eu e minhas irmãs líamos simultaneamente e quando acabávamos uma leitura trocávamos em nós. Os comentários sobre as histórias e os personagens eram frequentes, é claro que não éramos leitores treinados e educados na teoria de Walter Benjamin e Harold Bloom, nossa crítica ia muito mais para a história do que para os personagens, mesmo quando éramos nós a encarná-los em nossas escolhas, inclusive isso agora me faz pensar que mesmo com uma maior proximidade com a trama ainda haviam muitas cordas que nos deixavam em segurança, afinal embora estivéssemos interagindo com o conteúdo ele era estático, era apenas um livro. Pensar assim nos garante a integridade física, decidíamos em que armadilha o personagem cairia, enquanto estávamos sãos e salvos em casa. Os leitores de “Werther”, de Goethe, estavam a uma grande distância do protagonista da história, mas isso não foi o bastante para garantir que se envolvessem emocionalmente com ele e, sem esperanças, tirassem suas próprias vidas.

Muitos experimentos já foram feitos com livros, alguns bons exemplos são histórias em segunda pessoa, como “Aura” de Carlos Fuentes, “Memórias Sentimentais de João Miramar” de Oswald de Andrade, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, “Tristram Shandy” de Laurence Sterne etc., mas o importante a observar aqui é que muito da literatura mainstream segue uma receita de bolo, dificilmente arriscando um experimento, os leitores de “Sabrina” e Sidney Sheldon que o digam… Não afirmo que se deva experimentar sempre, e sim que se deixe de subestimar o leitor, muitos leem como se fossem sonâmbulos: andam com alguma segurança, mas não sabem para onde vão e nem como chegaram ali. Quero literatura de qualidade, o que muitas vezes acho difícil de caracterizar, mas estou me esforçando e acredito que isto faz toda a diferença.

Favoritos

Publicado em Samael (pré-Lúcifer) por Silvio Somer em 2009, novembro, 15, domingo

Tenho lido bastante alguns blogs, em especial o De Rerum Natura e o Obvious, me encantam suas abordagens e os assuntos, algumas vezes acho que os posts são concisos demais, o que vem na contramão do “antes pecar por excesso que por falta”.

Em hardcopy tenho lido uma porção de coisas: As Viagens de Guliver (Jonathan Swift), Noturno, 1894 (Raimundo Caruso), O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien), As Cidades Invisíveis (Ítalo Calvino), Paradise Lost (John Milton). Além disso tenho várias traduções começadas mas não terminadas, desde a Odisséia (Homero) até Paradise Lost (Milton), passando por algumas poesias de W. H. Auden e O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux). Preciso de umas 10 vidas pra fazer todas as coisas que quero.

Poente

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2009, novembro, 1, domingo

- Aqui, tome seu chá enquanto ainda está quente.
Pablo não esboçou qualquer reação, mas Juan sabia que aquele era seu chá favorito, em dias frios como este seu irmão costumava sentir muito frio e uma bebida quente era sempre muito bem-vinda.
Juan saiu da casa de teto baixo e olhou em direção aos últimos raios do sol antes dele se pôr, um lindo espetáculo que ainda o encantava, mesmo tendo-o apreciado por anos a fio. Lembranças levavam-no para diferentes épocas do passado, a infância marcada pela falta de comida, pelos longos e rigorosos invernos, pelos males respiratórios, pela longa distância da cidade mais próxima, pela educação rudimentar concedida pelos pais pouco letrados, mas quase tudo isso havia passado e havia em sua mente uma constante sensação de que nenhum outro lugar no mundo poderia ser melhor, pois esta era sua casa, sua família estava aqui, seus laços eram fortes e nada os separaria.
Mesmo depois do pôr-do-sol Juan ficou olhando para o oeste, a luz dentro de sua casa ainda não estava acesa, Pablo gostava destes momentos de escuridão após logo no começo da noite, pareciam-lhe uma hora mágica, em que a luz abandonava o mundo dos homens e alguns raios temiam em partir, mas todos já haviam partido, por mais que quisessem se demorar um pouco mais. A seu ver o nascer-do-sol não tinha a mesma beleza, o mesmo esplendor, a chamada “hora neutra da madrugada” em nada se comparava, era apenas uma “hora morta”.
A tristeza destes momentos era sempre agridoce para Juan, a umidade da noite se tornava opressiva em seu peito, junto com isso havia também o alívio em saber que esta mesma umidade se condensaria e seria coletada em um reservatório criado especialmente para isso. Como ali raramente nevava quase não havia falta d’água, o que não impedia do frio endurecer a terra, da geada queimar grande parte da plantação, para protegê-la era necessário cobrí-la com material leve e resistente, algo cara e difícil de conseguir nesta parte do país, diferente da capital, onde havia fartura de tudo, exceto de espaço para plantações e de ar puro.
Depois de muito vagar, muita interrupção e muito recomeço os pensamentos foram novamente dirigidos para sua família, seus pais haviam morrido há alguns anos, apenas Juan e Pablo ficaram ao encargo da pequena casa, mantida a duras penas. Decidido a voltar para dentro do único cômodo a que Juan chamava de lar um fogo foi aceso, grande o bastante para lançar sombras sobre as paredes, pequeno a bastante para não chegar ao teto. Enquanto a chama ainda estava incerta se cresceria ou morreria Juan observou o vapor de água que sua respiração formava, era muito parecida com a de Pablo, quando ele estava doente, pouco tempo antes de morrer.

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Fábula

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2009, outubro, 28, quarta-feira

Em meio a um branco total surge um ponto negro, minúsculo, mesmo quando visto de perto, mesmo quando visto de longe.
Aos poucos o ponto expande e revela alguns detalhes, como dois círculos, a saber: os olhos.
Como se estivessem ali o tempo todo (e chegamos a nos perguntar se não o vimos por negligência) uma série de pontos idênticos ao primeiro simplesmente ali está.
E esta música de onde vem? Para quem não sabe que lugar é este que tem diante dos olhos não tem muita importância a localização precisa da fonte da música, o aqui e o ali são quase a mesma coisa.
Enquanto a música se eleva e se alonga o mesmo fazem os pontos, agora incontáveis, mais pelo confusão que fazem a se mexerem do que por serem um número realmente grande, o que ainda não o são.
Algum passante pode aproximar o rosto destes pontos ambulantes e dizer: são formigas! Sim, são formigas. E a música que embala seus movimentos vem de cigarras. Ainda não há ritmo na dança, mas a música já marca um complicado contraponto. Ainda não há consciência da vida, mas a vida já é, já está.
Eis o universo.

As Belas do Cine Conhecimento

Publicado em Samael (pré-Lúcifer) por Silvio Somer em 2009, outubro, 26, segunda-feira

Depois de vários meses sem dar as caras por aqui voltei um pouco renovado e com uma certeza: ninguém sentiu minha falta! Por que, então, voltei? Respondo: Pra estar de volta. Isso me lembra a história que se conta de Sócrates, enquanto esperava a cicuta ser preparada ele aprendia a tocar (se não me engano) flauta, ao que perguntaram a ele por que ele aprendia a tocar flauta quando estava prestes a morrer, sua resposta foi: “para aprender a tocar flauta antes de morrer”. Da mesma forma posto no meu blog para escrever antes de morrer, embora eu torça para não morrer nem hoje, nem num futuro próximo, o universo é paciente e eu também!

(mais…)

A Verdadeira Letra de ‘O Fortuna’ (Carmina Burana)

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2009, março, 18, quarta-feira

Quase tive um ataque psicotécnico há pouco enquanto assistia a este vídeo, o cara realmente descobriu o que a letra da música O Fortuna quer dizer, o que é muito diferente da muito difundida estrofe

Sors salutis et virtutis
Michi nunc contraria
Est affectus et defectus
Semper in angaria.
Hac in hora sine mora
Corde pulsum tangite;
Quod per sortem sternit fortem,
Mecum omnes plangite!

Assista ao vídeo e tire suas conclusões.

Atualização: Acabei de assistir a um vídeo ainda melhor com a letra completa d’O Fortuna. Fazia tempo que eu não dava tanta gargalhada.

Dança do Pentagrama

Publicado em Lúcifer (Doppelgänger) por Silvio Somer em 2009, março, 17, terça-feira

No final de fevereiro o website Whiplash! mostrou o vídeo com a Dança do Pentagrama, sátira da dança do quadrado. Meu comentário pode ser resumido em uma única palavra: perfeito! O vocal esganiçado, a letra e a dança são tudo de bom do mal, hehe.

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